Vieira da Silva e Arpad Szenes na Coleção Fundação Ilídio Pinho

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07 Out 21 - 16 Jan 22 Museu

PEQUENA NOTA SOBRE VIEIRA DA SILVA E ARPAD SZENES A PROPÓSITO DAS SUAS OBRAS NA COLECÇÃO FUNDAÇÃO ILIDIO PINHO

 

Este conjunto de obras de Vieira da Silva é representativo das grandes linhas temáticas e expressivas que atravessam o universo artístico da pintora: as bibliotecas, as cidades, os azulejos, os labirintos, as tramas e teias e, de um modo mais lato, o espaço, a luz e a perspectiva.

Que esta colecção privada tenha também obras de Arpad Szenes é a confirmação da atenção e conhecimento da história de arte e de vida deste casal de artistas por parte do coleccionador e de quem o aconselhou.

Cronologicamente a primeira obra, de Vieira da Silva, é Sem titulo, de 1941- ano em que o casal estava a viver no Rio de Janeiro, a fugir da Guerra – uma têmpera sobre cartão em que podemos vislumbrar silhuetas de corpos fantasmagóricos que se fundem num padrão quadricular como uma parede de azulejos, mas em que os mosaicos estão colocados de um modo assimétrico e com falhas, fruto de uma visão rápida ou de um olhar de raspão de dentro de um veículo que se desloca velozmente. A cor dominante é escura. A paleta cromática sombria é característica transversal a todos os quadros deste período de exílio no Brasil que durou setes anos (de Julho de 1940 a Março de 1947), bem como a hesitação entre o registo da abstracção e o da figuração, o que reforça uma sensação de instabilidade, soturnidade e perda. Sabemos pela biografia da artista que este exílio não foi dourado.

De 1940, e mais que provavelmente ainda pintado em Paris, o óleo intitulado Atelier, de Arpad Szenes, aborda um tema frequente na obra do pintor e a confirmar, Intérieur, de 1935, é igualmente uma representação do ambiente de trabalho dos pintores, lá estão os pinceis, os óculos, a jarra com flores e nesta tela percebemos quanto o casal de artistas estava a olhar para a obra de Matisse.

Se voltarmos novamente à biografia de Vieira da Silva, diríamos que Ailleurs I, de 1948, e Construction, de 1951, foram pintados no Inverno, porque segundo a pintora existem cores para o frio, como o vermelho e o laranja, e cores do Verão, para pintar com o calor, como o azul, o verde ou o branco. Não deve surpreender então que a obra intitulada Printemps (1952), estação do ano de passagem e transição, seja uma tela em que a luz branca intensa irrompe por debaixo de uma trama escura e com pequenas pontuações vermelhas e amarelas.

Obras quase sempre pintadas durante a noite, debaixo de luz artificial, o que transformava a tela num palco em que as linhas, as cores, as manchas, encarnavam as personagens de uma peça de teatro escrita antes na sua cabeça: “Quando começamos um óleo ou um guache, há dois quadros a avançar a par, o que está no cavalete e o que temos na cabeça” disse Vieira da Silva e noutra entrevista afirmou “O tempo de que preciso não é propriamente para trabalhar com os pincéis. É para pensar nos quadros que vou pintar”.

Olhe-se para e atente-se nos títulos Les maisons ascenseurs ou Les vieilles maisons (1956), Scenic Railway (1957), La ville rongée (1958), Ville neuve (1960). Estamos perante uma pintura mental, por vezes metálica-eifelliana, uma arquitectura pictórica construída como uma encruzilhada urbana vista de cima e de longe ou de dentro do esqueleto da cidade. Vieira, que teve aulas de anatomia, e que gostava mais de desenhar os ossos do que os músculos, olha para a cidade do mesmo modo que olhou enquanto estudante para o corpo humano, interessa-lhe mais o osso do que a carne, mais a omoplata do que o braço, mais a estrutura e a malha urbana do que as casas e o reboco ou as superfícies. O osso da pintura moderna.

Biblioteca (1949), Torre de Belém (1948), Veni Sancte (1981) mostram o fascínio que a pintora tinha por livros e letras a par da música. Tocava piano e ouvia permanentemente os clássicos enquanto pintava no atelier, os sons instrumentais funcionavam como pano de fundo, enquadramento e estrutura para o trabalho pictórico, La cage aux oiseaux (1948) é uma verdadeira arte da fuga, com as linhas e cores voando num rodopio musical em que as pautas se soltam e quebram. Aliás, várias pinturas recebem o título de Composição como é exemplo Composition ou Le port de 1965.

Mulher num mundo de homens, deixa cair o Maria Helena e assina somente as suas obras como Vieira da Silva. Admiradora incondicional da pintura do homem da sua vida, Arpad Szenes, o qual perante os desenhos da jovem Vieira, quando chegada a Paris no final dos anos vinte do século passado, foi um crítico feroz e logo importante para a aprendizagem e evolução plástica da artista. Admiradora dele, da velocidade e das alturas, Vieira da Silva afirmou que voar de avião lhe lembrava a pintura de Arpad e observando as abstracções etéreas de Paysage (1960) de Szenes, compreendemos bem as palavras dela, parcas, mas certeiras, como era seu apanágio.

Isabel Carlos

Lisboa, Agosto de 2021

 

Nota: Todas as referências deste texto, nomeadamente biográficas, bem como a citação (pág. 99) foram retiradas da obra Au Fil du temps: percurso fotobiográfico de Maria Helena Vieira da Silva, de Ana Ruivo, com Marina Bairrão Ruivo e Sandra Santos, edição Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, Lisboa, 2008.

Vista da exposição

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