Mily Possoz e Maria Helena Vieira da Silva: duas mulheres, pintoras, dois percursos singulares no panorama da arte portuguesa, com opções diferentes que se cruzam em determinados momentos. Vinte anos as separam, uma amizade e muitos pontos comuns as unem. Mily (Emília) Possoz, de origem belga, integra o Primeiro Modernismo Português. Tal como Maria Helena Vieira da Silva, nasceu em Portugal, em 1888, num meio sócio-cultural privilegiado, estudou piano e teve aulas de pintura com Emília Santos Braga (1867-1949), antes de partir para Paris em 1905 para frequentar a Académie de la Grande Chaumière. Tal como Vieira, viaja por vários países europeus e dedica-se à gravura (no caso de Mily em Bruxelas e Düsseldorf). Vieira da Silva decidiu ficar a viver em Paris – 1928-, ao contrário de Mily que optou por voltar a Lisboa.
Autora de uma vastíssima obra de ilustração, desenho, gravura e pintura, Mily Possoz tem um percurso singular no movimento modernista português. Nos anos 20 e 30 dedica-se essencialmente à ilustração, na imprensa e em obras literárias enquanto participa em exposições marcantes como a exposição dos Cinco Independentes em 1923, o Salão de Outono na SNBA em 1925 e o I Salão dos Independentes, também na SNBA, em 1930 – onde Vieira da Silva também participou – e em iniciativas do Secretariado de Propaganda Nacional, criado em 1933.
Mily Possoz conviveu com o que mais estimulante se fazia em Portugal, aprendizagem que conjugou com a sua formação em Paris, Bruxelas e Düsseldorf e que resultou num léxico moderno de influências cosmopolitas e eruditas que aplica de forma original em diversas técnicas (desenho, pintura, gravura). Vieira da Silva e Mily Possoz participam ainda na “Exposição de Montras no Chiado” em 1940, antes do casal Szenes partir para o Brasil, fugindo à Segunda Grande Guerra. A exposição reúne obras da colecção da família de Mily Possoz, do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian e do Hotel Tivoli, que preserva a maior colecção de obras da artista. Comissariada por Emília Ferreira, a exposição propõe uma nova abordagem e uma reavaliação da obra de Mily Possoz, capazes de reflectir a sua sensibilidade à modernidade.