O trabalho apresentado na casa-atelier Vieira da Silva recupera o lugar como íntimo, pessoal e de respiração. A folha de cobre repousada no chão propaga o calor e a luz da lareira pelo espaço, é um condutor térmico e de reflexos.
A luz natural difundida nos 9 metros de comprimento da folha de cobre, cruza se com a luz forte da lareira que desenha no cobre uma chama intensa e espaçosa. Os reflexos experienciam-se a partir do movimento de quem observa, e percorre o espaço caminhando ao lado da folha, até à lareira; observando a luz natural e a luz do fogo. A folha no chão, acomoda-se e apropria-se do seu relevo. A espessura de 0,02mm permite que a folha revele a textura do chão, e também que envolva a arca negra de Vieira da Silva.
Apesar do seu aspeto frágil e temporal, a resistência e condutibilidade são características deste material. Criando assim uma analogia entre a folha de cobre e a folha de papel gampi das xilogravuras, quase translúcida mas também feita de fibras muito resistentes.
As gravuras evocam a relação do corpo e da matéria com o cuidado do fogo, a sua energia ou ilusão e a passagem de mão em mão. As xilogravuras formam um díptico, são entidades similares que lembram vestes e evocam o corpo como memória e companhia. Definem um lugar que aproxima a ausência, da procura, da presença à frente do fogo.
São gravuras impressas em papel gampi utilizando o baren. A pressão da mão conjugada com a resistência, exatidão e delicadeza do papel, revelam a gravura.
A gravura pequena conjuga várias técnicas e é o resultado de 4 passagens na prensa. São duas chapas gravadas com água-forte e água-tinta. Esta gravura, dispõem-se a ser perdida no espaço da casa atelier ao (con)fundir se com a madeira do aparador. Surge como uma marca, um vinco, ou uma folha de árvore caída, que adquire luz no raio do nosso olhar.
Inês Soares e Maria Ribeiro