Um novo ciclo intitulado uma obra, uma colecção tem início a 10 de Março na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva. Uma obra significativa de uma colecção, pública ou privada, dá o mote para estas mini-exposições, com duração de um a dois meses. Em torno da obra exploramos a figura do artista, a técnica, a colecção e o coleccionador, através de diversos eventos e actividades. Um ponto de partida, múltiplos percursos, um capítulo da história da arte servido ao público em doses controladas.
Christian Boltanski e as suas fotografias a preto e branco dos 62 membros do Clube do Rato Mickey em 1955, são o artista e a obra convidados, parte da Sonnabend Collection Foundation de António Homem. Em exposição até 8 de Maio.
A Obra
THE 62 MEMBERS OF THE MICKEY MOUSE CLUB IN 1955 , 1972
62 fotografias a preto e branco em molduras de estanho com vidro
183 x 222 cm (conjunto)
Em 1972 Christian Boltanski refotografou e emoldurou 62 fotografias de crianças, retiradas da revista anual do Clube do Rato Mickey de 1955. Neste conjunto de fotografias podemos ver 62 crianças e jovens sorridentes, em pose de retrato, com o seu animal de estimação, a fazer desporto, a dançar ballet ou a tocar piano, todos revelam o seu melhor, a forma como querem ser lembrados na revista do clube. Dezassete anos depois, Boltanski é confrontado com estas imagens e a sua incapacidade de representação: «Todos eles devem ter hoje [1972], a minha idade, mas eu não posso saber no que se tornaram. A imagem que permanece já não corresponde à realidade, todos estes rostos infantis desapareceram.» Estes retratos não significam presença mas o seu contrário: ausência. Se “interioridade” e “essência” existissem efectivamente no retrato, como é crença comum, estas fotografias deviam possibilitar ao artista o contacto com as crianças representadas. Mas não o fazem. Evocam apenas a ausência.
O Artista
Boltanski nasceu em Paris. Filho de pai judeu e mãe católica, a sua vida e a sua obra seriam profundamente marcadas pela memória da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e do Holocausto.
Depois das primeiras pinturas, vinculadas a uma linguagem figurativa, Boltanski começa a integrar nos seus trabalhos cartas, documentos e fotografias. Estes elementos viriam a revelar-se fundamentais para a definição da temática central da sua carreira – a (auto)biografia, explorada através de objetos e fotografias que representam recordações que o artista considera como parte de uma memória colectiva que também é a sua.
Para além disso, o artista desenvolve uma profunda reflexão em torno do uso da fotografia enquanto memória, do seu papel enquanto suporte de registo sobre um momento preciso e, simultaneamente, enquanto veículo de mistério acerca de todo o que precedeu e ocorreu após esse momento.
A Colecção
A Colecção da Fundação Sonnabend tem a sua origem na colecção iniciada por Ileana e Michael Sonnabend, fundadores da Sonnabend Gallery, inaugurada em Paris em 1962. A galeria Sonnabend foi pioneira na divulgação da arte americana da década de 1960 na Europa e da arte europeia nos Estados Unidos da América, dando a conhecer a diferentes públicos a Pop Art, a arte conceptual, a arte povera e a arte minimalista. Em 1970, a Sonnabend Gallery abre um espaço na Madison Avenue, em Nova Iorque e em 1971 desloca-se para o Soho, ajudando a tornar esta zona num dos maiores centros artísticos internacionais até cerca de 1990. No final da década de 1990, a galeria muda-se para Chelsea onde funciona até 2014.