POR DENTRO DA OBRA A TÉCNICA DA TÊMPERA NA OBRA DE VIEIRA DA SILVA
A pintura de Vieira da Silva confunde-se com várias técnicas que lhe serviram de diferentes formas: a pintura a óleo que privilegiou e que lhe dava mais alegria[1], mas também o guache e a têmpera, técnicas que lhe permitiam aceder a características especiais de matéria e luz. A têmpera, agora objecto de estudo, foi técnica de eleição a partir de 1953. Agradava-lhe a frescura das cores tal como a intensidade e a secagem rápida, particularmente propícia ao trabalho por planos. Tal como para os óleos (usando sobretudo as marcas Watteau e Winsor and Newton), Vieira da Silva preferia comprar as têmperas já feitas, neste caso da marca Sennelier.
A investigação científica está subjacente às missões de um museu, fornecendo elementos factuais e interpretativos, sendo um contributo importante à conservação e ao conhecimento das obras. O contributo da Professora Agnès Le Gac, do Departamento de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (FCT NOVA) e Membro investigador do LIBPhys-Laboratório de Instrumentação, Engenharia Biomédica e Física da Radiação (FCT NOVA), em colaboração com o Laboratório HERCULES-Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda da Universidade de Évora, o Laboratório José de Figueiredo da Direcção Geral do Património Cultural e o Grupo dos Semi-condutores da Universidade Técnica de Chemnitz, Alemanha, contando com o apoio da plataforma portuguesa da Infraestrutura Europeia de Investigação em Ciências do Património (E-RIHS.pt), vem ao encontro da política de estudo e documentação das obras a têmpera da colecção do museu. Para além da investigação histórica, a autora inclui técnicas científicas de exame e análise, permitindo o desenvolvimento do conhecimento e o ver “por dentro da obra”. O seu estudo, os elementos factuais e interpretativos, são mostrados numa singular exposição, lado a lado com as pinturas apresentadas.
A pintura a óleo foi a técnica de eleição de Vieira da Silva, a par do guache e da têmpera – técnicas muitas vezes confundidas. Todas lhe serviram para o mesmo fim, sendo que as obras sobre papel permitiram uma entrega mais directa e rápida do que os trabalhos a óleo. A têmpera, pelas suas características particulares, adaptou-se na perfeição ao que lhe interessava explorar, pois permite um grande espectro de cores, e Vieira apenas usou tintas já feitas de qualidade, da mesma forma que escolheu criteriosamente os papéis que usou, deixando-se por vezes guiar pela asperidade do grão. A secagem relativamente rápida permite que a artista pinte por camadas. O acabamento mate e sem relevo serve a subtileza que quis expressar. Vieira da Silva utilizou algumas vezes a têmpera em grandes formatos sobre tela – de que são exemplos algumas das suas obras mais significativas – mas sobretudo em suportes de papel de vários formatos e gramagem.
A Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva agradece reconhecidamente a iniciativa de Agnès Le Gac e as várias instituições e respectivos laboratórios que contribuíram para o estudo científico e laboratorial das obras a têmpera, como aprofundamento do conhecimento das obras e o auxílio na conservação deste património.
[1] Anne Philippe, O fulgor da luz, p. 55.