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OLHARES MUTUOS: SOPHIA E MARIA HELENA
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OLHARES MUTUOS: SOPHIA E MARIA HELENA

OLHARES MÚTUOS

Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Helena Vieira da Silva

por Sílvia Tavares Chicó

Escolhi fazer este texto como um convite/desafio a futuros trabalhos sobre a relação e apreciação mútuas que existiram entre Sophia e Maria Helena. Creio que estamos perante um tema que em si próprio contém um manancial de possíveis leituras, que podem realizar-se no domínio dos Estudos da Literatura e Artes Plásticas, da Estética e das Teorias da Arte. Nesta abordagem sintética apontam-se várias hipóteses, mas muitas mais se podem encontrar. Irei referir apenas algumas.

1. RECONHECIMENTO

Duas criadoras que se (re)conhecem e identificam. Duas portuguesas oriundas de classes sociais que lhes permitiram uma educação avançada em relação aos padrões da sua época. Ambas oriundas de um meio cultural sofisticado, seguem a orientação escolar que mais se quadra com os seus interesses, desde cedo afirmados. Sophia estuda Filologia Clássica, data da sua juventude o interesse pela cultura grega.

Maria Helena estuda Pintura, primeiro em Lisboa e mais tarde em Paris, onde muito jovem se instala com a sua mãe, passando a viver na cidade onde estima que existe o melhor ensino possível. Claramente sabia que a Pintura era a sua meta.

2. RIGOR E ORIGINALIDADE

Desde sempre que Maria Helena teve a noção de que é através de um trabalho atu­rado que se alcança a capacidade de pintar, de desenhar, de representar. Sempre soube que o desenho é a base da construção pictórica que pratica, o seu interesse pelas estruturas leva-a a estudar anatomia durante vários anos, desenhando ossos e músculos e, também durante vários anos, faz desenho de modelo. Exigia a si própria um extremo rigor profissional. Trabalhou obsessivamente toda a vida, a sua vida tor­nou-se arte. Na pintura e numa fase quase inicial, Maria Helena inventa um espaço profundamente original, em que perspectivas de múltiplos pontos de vista criam a ilusão de espaços ambíguos, invocando arquitecturas, paisagens urbanas. Nesse tempo os pintores da Escola de Paris seus contemporâneos não representavam a terceira dimensão, fazê-lo era considerado quase uma traição à vanguarda de en­tão, que preconizava a bidimensionalidade. Maria Helena sempre perseguiu o “seu” espaço, indiferente ao que se pudesse julgar. A questão da originalidade não se lhe punha, mas ela era profundamente original.

Para Sophia a poesia era algo de inato, em criança pensava que a poesia estava na na­tureza e que mediante certa atenção poderia captá-la. A Musa que nos poemas refere é a inspiração que ao longo da vida vai buscando ou que lhe surge inesperadamen­te, num processo de imanência que muitas vezes a surpreende. É interessante referir que em Sophia se observa, desde os primeiros poemas, a importância do olhar. Na sua poesia, uma rara acuidade visual se transmite, para Sophia o olhar é um modo de apreensão do mundo. Mas tal como em Maria Helena, o poema decorre de muito tra­balho de depuração, para que não existam palavras a mais. Existe uma busca rigorosa e fundamental no processo de escrita na obra da poeta: a busca da palavra exacta.

3. A MUSA

Tanto Sophia como Maria Helena quando criam sabem que estão a transmitir algo que poderá estar para além da sua vontade, de algo que não decorre da lógica. Per­tencem ao extenso grupo de criadores do século XX que sabe que a arte se faz para lá do que é racionalizável. Conhecem uma das principais contribuições da ciência do seu século: a psicanálise e a descoberta desse grande protagonista das artes e das letras- o inconsciente. A cruzada da captação do inconsciente, as múltiplas técnicas e operações que serviram para esse desígnio, influenciaram grande parte das poéti­cas do século XX. Tanto na pintura como na escrita, os artistas e poetas procuraram descondicionar-se mentalmente, para alcançarem a “parte invisível” do seu eu. Se­gundo a análise de Maria Andresen, filha de Sophia, uma das principais estudiosas da obra da poeta e responsável pelo estudo e disponibilização do seu espólio literário, os poemas de Sophia relacionam-se mais com a imanência do que com a transcen­dência, para a qual tendia Fernando Pessoa.

Em Arte Poética IV escreve: «Fernando Pessoa dizia: “Aconteceu-me um poema” A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste “acontecer” O poe­ma aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que es­cuto e noto.» E mais adiante: «É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.» Existe um relato que parece feito de propósito para esta exposição: Sophia conta que ao escrever LANDGRAVE, um texto sobre uma obra de Maria Helena, lhe apareceu um poema: «Escrevi pouco a pouco, com muitas interrupções, metade num caderno, metade num bloco, riscando e emendando, num artesanato muito la­borioso, perdida em pausas e descontinuidades. E através das pausas o poema sur­giu, passou através da prosa, apareceu na folha direita do caderno que estava vazia.»

Eis o poema, que poderia dar origem a um tratado sobre aquilo que os românticos designavam por inspiração.

MUSA

Aqui me sentei quieta

Com as mãos sobre os joelhos

Quieta muda secreta

Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto

Imanente e latente

Eu quero ouvir devagar

O teu súbito falar

Que me foge de repente

 

 

Maria Helena não assume tão claramente a aparição da Musa, mas é evidente que na pintora existe a noção da necessidade de se descondicionar ou deixar funcionar a in­tuição. Maria Helena é um ser algo introvertido que se refugia no seu espaço próprio, a quem o ruído dos outros perturba. A sua Musa é procurada no laborioso inventar de um espaço plástico seu, inovador e diferente de tudo o que se conhecia. Esse espaço, de­signado por uns elástico por outros ambíguo, originou um manancial de interpretações que, cremos, ela considerava um pouco absurdas, na medida em que não entendia muito bem como a pintura que fazia pudesse ser descrita por palavras. Sabia que cami­nhava num campo próprio, indizível, que a separava da realidade dos comuns, que raras pessoas compreendiam. Uma dessas pessoas era certamente Sophia. As duas tinham em comum essa relação com um mundo que sabiam existir, eram como videntes, e era esse mundo que, de quando em quando, lhes dava a chave das suas linguagens.

Também lhes é comum uma concepção do divino em que não consideram um Deus único, mas referem forças que designam por deuses.

Maria Helena pouco explicou a sua obra, algumas declarações que lhe conhecemos não apontam para a intenção de apresentar ao público qualquer teoria sobre a sua arte. No entanto, teria certamente noção do impacto que a sua pintura provocava, do efeito produzido pela inovação que a obra trouxe, o que pode ser constatado nas mais diversas leituras que da sua pintura se fizeram.

Pelo contrário, Sophia, além de poeta, foi também uma ensaísta que leu com admi­rável lucidez e clareza a arte de Maria Helena. O trabalho de síntese que faz na poe­sia, na procura da palavra exacta, ajuda-a em poucas palavras, a caracterizar brilhan­temente o que vê em arte, como pode na exposição constatar-se, ao ler landgrave ou maria helena vieira da silva.

4. INTUIÇÃO – REVELAÇÃO

A confiança na intuição explica muito sobre o processo criativo das duas autoras. Maria Helena afirma: «Confio na intuição. Deixo a intuição surgir e duvido das teorias. Não confio nos seres que têm demasiada confiança em si, que têm demasiadas certezas».

Tanto para Sophia como para Maria Helena, as obras que produzem têm uma espécie de vida própria, são entidades com força anímica, por vezes pacíficas e simpáticas, por vezes ameaçadoras. Maria Helena conta: «quando numa das minhas telas apa­rece um rosto, uma silhueta, um personagem, não é nunca decisão minha. São eles que se impõem. Limito-me a soltá-los, a deixá-los surgir a dar-lhes acesso.» Sophia conta que muitas vezes ao escrever contos não prossegue com a escrita, por medo dos monstros que ameaçam aparecer. Esse sempre presente contacto com um eu oculto, pode também despoletar forças malignas que a poeta teme e evita. Relata assim esse temor: «Estou a escrever outro livro de contos para adultos, ainda sem título. Mas há certos contos onde surgem coisas que fazem medo- e eu paro, porque começo a ter medo das coisas que aparecem enquanto escrevo.»

 

5. AFINIDADES TEMÁTICAS

Na pintura de Maria Helena o espaço plástico é o principal protagonista. Tudo par­te desse espaço em que a pintora brinca com as regras da perspectiva ocidental, criando uma sensação de desmultiplicação, colocando o espectador numa simul­taneidade de opções de observação, que pode ser alucinante. Voluntariamente, ou não, o espaço da pintura invocando a tridimensionalidade, acaba por conotar-se com o espaço arquitectónico. Percebe-se que existe em Maria Helena um olhar atento e deslumbrado sobre a cidade e a arquitectura, que parece ser a memória das casas de Lisboa com os seus azulejos. O espaço arquitectónico, as casas, é um tema que apaixona as duas autoras. Sophia é capaz de escrever um conto só descrevendo uma casa, a casa branca das suas férias da infância, que sabemos ter sido um dos contos preferidos - e ilustrado - por Maria Helena, a CASA DO MAR, um texto intei­ramente dedicado à descrição da casa branca em frente ao mar, onde em criança Sophia experimenta a sua primeira emoção estética, ao olhar uma maçã vermelha sobre uma mesa, vendo o brilho do mar ao fundo. A presença e a memória dos es­paços das casas inscrevem-se na poesia de Sophia com a mesma força com que invoca temas como o mar, a luz e o vento.

Ainda um poema que refere o mesmo tema:

CASA BRANCA

Casa branca em frente ao mar enorme,

Com o teu jardim de areia e flores marinhas

E o teu silêncio intacto em que dorme

O milagre das coisas que eram minhas.

 

6. CIDADANIA E LUTA POLÍTICA

Maria Helena casa em 1930 com Arpad Szenes, de origem judaica. Quando rebenta a guerra, o casal volta para Lisboa onde pretende ficar. Mas são obrigados a partir para o Brasil por lhes ter sido negada a nacionalidade portuguesa. Durante anos o casal é apátrida e vive exilado. Mais tarde chegam as honras e o reconhecimento por parte do governo francês e muito tempo depois, do governo português. Maria Helena foi durante anos uma portuguesa sem pátria, mas que nunca negou ajuda aos muitos exilados e expatriados que durante longos anos procuraram o seu apoio em Paris. Graças à sua obra, foi obtendo reconhecimento internacional e assim acabou por servir e beneficiar o seu país de origem. Em 1970 a Fundação Gulbenkian promoveu uma grande exposição de Maria Helena na sua sede, e no catálogo dessa exposição podem ver-se textos de muitos intelectuais portugueses. F oi uma consagração tar­dia, talvez associada também à hipervalorização económica da sua obra, num mer­cado da arte então emergente, que se interrompeu depois do 25 de Abril de 1974. Quase no fim de uma vida dedicada à arte, Portugal redime-se e honra a artista. E a artista retribui. Prova disso é a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva , onde nos en­contramos a ver esta exposição.

Para Sophia, ser poeta era sinónimo de ser justo, de combater pelo próximo, de lutar contra as desigualdades sociais. Desde os tempos da campanha de Humberto Del­gado na década de cinquenta que se sente na poeta essa vontade de justiça que a leva a execrar o sistema político português no tempo da ditadura. O seu combate não foi só feito em textos e poemas, Sophia participou ativamente da oposição ao Estado Novo. Foi candidata pela oposição Democrática nas eleições legislativas de 1968. Foi sócia fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Após a Revolução de Abril de 1974 foi candidata à Assembleia Constituinte pelo Par­tido Socialista onde foi deputada. Mas relativamente cedo entendeu que a sua obra como poeta fazia mais sentido do que o seu esforço na Assembleia Constituinte.

Sophia pertenceu a instituições como o Centro Nacional de Cultura, que foi um cen­tro de resistência e debate importantíssimo, onde várias acções em prol da liberdade se organizaram.

Numa última entrevista, Sophia deu a entender que partiria com pena por não se ter cumprido o seu desejo – que existissem menos diferenças entre ricos e pobres, mas nos seus últimos momentos de vida disse a sua filha Maria que a sua vida tinha sido maravilhosa.

Sophia deixou um legado onde a mais sublime poesia se associou a uma consciência cívica notável, uma verdadeira moral e elegância, que hoje em dia tanta falta fazem.

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