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AMIGOS DE PARIS. Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins
AMIGOS DE PARIS. Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins

AMIGOS DE PARIS

Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins  

«Croyez-nous, c’est pour nous un véritable plaisir que de voir ces jeunes travailler et s’épanouir dans le climat si actif de Paris.»

Arpad Szenes sobre os jovens artistas

A exposição Amigos de Paris. Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins  é organizada pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva em colaboração com  Fundação Calouste Gulbenkian.  Comissariada por Ana Vasconcelos e Melo (FCG-CAM) e Marina Bairrão Ruivo (FASVS), a exposição reúne obras de quatro artistas: Lourdes Castro e René Bertholo, Jorge Martins e José Escada. Todos tiveram uma ligação especial ao casal Szenes, pela amizade e pela orientação artística.

A mostra procura revelar obras de início de carreira (década de 60 e início de 70), que ilustrem um período crucial da produção e apontem já futuras direcções de pesquisa. À colecção do museu juntámos um conjunto de obras da colecção da Fundação Calouste Gulbenkian, aquisições e doações dos artistas, complementado por algumas obras de colecções particulares.                                                                                

Arpad Szenes (em 1925) e Vieira da Silva (em 1928) optaram por sair dos seus países de origem para viver em Paris, motivados pelas necessidades de uma pintura cada vez mais exigente e pelo estímulo cultural e intelectual da cidade. Conheceram o exílio no Brasil (1940-1947) e permaneceram apátridas até 1956, ano em que lhes foi concedida a nacionalidade francesa. O casal manteve sempre um contacto regular com artistas e intelectuais portugueses, nas visitas a Portugal ou em Paris, onde eram frequentemente procurados.

Nos anos 50 a sua pintura atinge a maturidade e ganha notoriedade em França e no estrangeiro, enquanto o clima cultural em Portugal é marcado pelo isolamento, pela censura e pela estética modernista própria do regime e da sua ideologia repressiva, pela ausência de possibilidades no ensino, no mercado e nas instituições. O desejo de renovação cultural e artística, a procura da possibilidade de trabalhar ou a recusa em participar na guerra colonial (1961-1974) levaram uma geração de jovens artistas portugueses a abandonar o país.

Em 1956, a criação da Fundação Calouste Gulbenkian trouxe novas perspectivas à actividade cultural. A política de apoio às artes e, em particular, a atribuição de bolsas de estudo para o estrangeiro gerou uma nova dinâmica no panorama artístico português. O êxodo criativo, motivado por dissidência cultural ou política convergia sobretudo para Paris.

A generosidade de Maria Helena Vieira da Silva e de Arpad Szenes era conhecida, em especial para com os jovens artistas portugueses que chegavam a Paris com poucos recursos. O casal interessava-se pelas suas experiências pictóricas, providenciava discretamente para que não lhes faltassem materiais, visitava os seus ateliers e convidava-os regularmente para sua casa, oferecendo um desenho ou um guache para poderem vender quando a necessidade era mais premente. Por seu lado, também os jovens artistas ofereciam obras suas ao casal, núcleo que integra actualmente o espólio da FASVS e parte do qual é agora mostrado.

Lourdes Castro (1930) e René Bertholo (1935-2005) partiram para Munique em 1957, mudando-se pouco depois para Paris, onde permaneceram até ao final da década de 70. Aí fundaram o grupo KWY, junto com Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, João Vieira, José Escada, Jan Voss e Christo, do qual resultou uma revista com o mesmo nome, editada em doze números. Arpad Szenes e Vieira da Silva assinaram a revista desde o primeiro número e nela colaboraram, com a cedência de matrizes para a edição de serigrafias.

Lourdes Castro prosseguia a sua pesquisa sobre a representação da sombra, que em 1964 se materializou no recurso ao plexiglas (mais tarde projectando a representação das sombras em lençóis), após ter realizado (1961-1963) objectos-caixas com assemblage de diferentes objetos de utilização quotidiana e consumo corrente.

Foi em Paris que René Bertholo construiu a sua linguagem. Adepto da edição de múltiplos (serigrafia, litografia, edições de artistas), dedicou-se nos primeiros anos à revista KWY. Após uma fase de aprendizagem abstracta, a pintura de René Bertholo equaciona a relação entre figuração e abstracção, introduzindo num discurso neo-figurativo irónico e poético, figuras e motivos da vida quotidiana, numa espécie de inventário da realidade e dos seus símbolos. Após 1965, os objectos pintados passam a objectos e mecanismos tridimensionais com pequenos motores eléctricos que provocam movimentos lúdicos e repetitivos, também estes múltiplos por opção.

José Escada (1932-1980), amigo de Lourdes Castro e René Bertholo, juntou-se ao projecto da revista KWY, desde Lisboa. Em 1959 ganha uma bolsa da Gulbenkian para estudar  pintura em Paris, tendo como orientadores Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Chega a Paris no início de 60, privilegiando o desenho e a aguarela, em exercícios caligráficos imaginários. As composições labirínticas são transpostas para dobragens de papel simétricas, também elas obsessivas, que conduziram a uma pesquisa relacionada com o corpo humano. O seu trabalho confundiu-se com a procura metafísica do artista e sua busca de ordem jamais teria fim.

Jorge Martins (1940) foi para Paris em 1961, não integrou o grupo KWY (tendo no entanto colaborado no n.º 8 da revista) nem foi bolseiro da FCG. Foi, todavia, o que permaneceu mais tempo na capital francesa (1961-1974; 1976-1991) e foi dos mais próximos de Vieira da Silva e de Arpad Szenes, trabalhando largas temporadas nos ateliês dos artistas, em Paris e em Yèvre-le-Châtel. Nos estimulantes anos 60 parisienses Jorge Martins investigou e exercitou um inventário de formas, jogos de luz e uma linguagem plástica em escultura, fotografia, pintura e no desenho - que terá um lugar determinante na sua obra.

 

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