A exposição Cahiers. Books é comissariada por João Pinharanda e constituída por um extenso conjunto de desenhos do pintor António Sena (1941-) que integram diferentes séries (série “Books”, série “Cahiers de Voltaire”), baseados no Livro do Génesis e no texto de Voltaire, Poème sur le désastre de Lisbonne, sobre o terramoto de 1755.
O catálogo bilingue (português/inglês) inclui um texto de Vasco Graça Moura.

António Sena, Prémio de Desenho EDP em 2002, é um nome indispensável da arte portuguesa desde que, a partir dos anos 60, explora de modo intenso a escrita como desenho, servindo-se dos textos como imagens, estabelecendo a sua pesquisa em torno da escrita e da exploração dos signos, relacionando gesto e visão, leitura e abstracção.
Esses exercícios são pensados e realizados enquanto desenho: a mão não executa meros movimentos de cópia, em que a legibilidade seja a preocupação dominante; liberta-se encontrando no momento da inscrição uma coincidência entre letra e desenho, entre palavra e figura, entre texto e imagem.
Trata-se da revelação de um subtexto, paradoxalmente resultante de uma sobreposição de textos, que nos confronta com a mensagem literária, ideológica e cultural de cada uma das fontes escritas citadas e nos abre para uma dimensão em que o texto passa a significar-se visualmente (como mensagem plástica capaz de reinterpretar e enriquecer toda a simbologia da mensagem original).
Estes efeitos são alcançados através de processos de reescrita, sobreposição, raspagem e apagamento, subtileza de densidades de matéria e variações cromáticas, acrescentando densidade visual e plástica à densidade das referências originais.
Esta estratégia vai libertando a mão e o olhar da ideia de legibilidade, obrigando o "leitor" a tornar-se "espectador plástico", disciplinado, no entanto, pelos suportes (velhas folhas de cadernos de exercícios e cadernos comerciais), pela ainda dominante composição linear e pela obrigatoriedade que cada um sente no reconhecimento, quase arqueológico, de frases e palavras significativas em cada mancha.
A série mais extensa desta exposição é constituída pela "transcrição" do longo poema filosófico que Voltaire dedicou ao Terramoto lisboeta de 1755 de que, recorde-se, nasceu todo o bairro das Amoreiras e o próprio edifício onde se encontra a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva.
Os outros blocos são compostos por derivações dos textos iniciais da Bíblia, nomeadamente do Génesis, no seguimento de uma pesquisa iniciada há mais de dois anos.
Esta exposição de desenhos de António Sena, Cahiers . Books, integra o programa de mecenato e colaboração entre a Fundação EDP e a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, iniciado em 2008 com as exposições “Correspondências” sobre a relação de Arpad e Vieira com Mário Cesariny, “Vieira da Silva, Arpad Szenes e o Castelo Surrealista”, no Museu da Electricidade, e “V”, desenhos de Adriana Molder.
