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Casa-Atelier Arpad Szenes - Vieira da Silva
13 Junho 2013 - 31 Dezembro 2014
Casa-Atelier Arpad Szenes - Vieira da Silva

Ateliers, a arte a partir de um espaço

Ao longo de 55 anos de vida em comum, Vieira da Silva e Arpad Szenes ocuparam várias casas e ateliers, em Paris, Lisboa, Yèvre-le-Châtel ou Rio de Janeiro. As afinidades formais e conceptuais entre os vários espaços onde trabalharam e o universo plástico e vivencial dos pintores insinuam-se nos seus trabalhos, detectando-se a marca significante dos sítios por onde passaram e trabalharam, a forma como sentiram o ambiente envolvente.

Os ateliers são lugares de isolamento, de confrontos com silêncios criativos ou espaços de criação, de intensa produção. A intensidade de cada sítio, partilhado ou não, foi vivenciada por Maria Helena Vieira da Silva e por Arpad Szenes de maneira diferente, ao longo do tempo. O início de vida em comum forçou o casal a partihar espaços de trabalho (Villa des Camélias, Boulevard Saint-Jacques em Paris e Alto de São Francisco em Lisboa). Sítios que foram tema ou cenário das suas pesquisas plásticas, se tornaram indissociáveis de muitas das obras dos pintores e nos remetem para a história das relações pictóricas do casal. São óbvias as influências mútuas, que resultaram num enriquecimento plástico pelo intercâmbio e partilha de gostos, ideias e opções, de intensa cumplicidade. As respectivas obras terão poucos denominadores comuns, o que não significa que sejam independentes e alheias uma da outra.

A correspondência situa-se para lá do ponto de vista formal, residindo mais num entendimento comum da pintura, na atitude exigente e nas interrogações plásticas que cada um resolveu à sua maneira. Arpad Szenes era onze anos mais velho que Vieira da Silva, e mesmo sem pretenções de ensinamentos, Vieira escutava atentamente os comentários do marido sobre a sua pintura, pela profunda admiração que tinha por ele e pela sua obra. No entanto, a partilha do mesmo atelier nos primeiros anos de casados não terá sido uma boa experiência. Assim que lhes foi possível, separaram os locais de trabalho, com medo de se incomodarem mutuamente, e só mostravam os seus trabalhos um ao outro depois de acabados ou na fase final de execução. Os anos 50 permitiram a confirmação da separação de espaços de trabalho, criados de acordo com os desejos do casal e adequando-se aos seus desejos e necessidades (Rue de l’Abbé Carton), e representam outra fase de passagem à maturidade enquanto artistas, que os leva a outro tipo de arte onde já não se detêm a cristalizar o que os rodeia nem a retratar-se mutuamente.

A casa do Alto de São Francisco, junto à Praça das Amoreiras em Lisboa, é ainda hoje a casa de Vieira – património da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva – e foi aí que morou e trabalhou sempre que voltava a Lisboa, acompanhada pelo marido e pintor Arpad Szenes. Por ali, o casal viveu a angústia de se ter tornado apátrida e despediu-se da Europa a caminho do Brasil. No Rio de Janeiro (Santa Tereza) Arpad dá aulas a jovens artistas, actividade que manterá no regresso a Paris e onde realiza inúmeros retratos de Vieira da Silva. Para Vieira da Silva, a estadia no Brasil foi particularmente dolorosa e a sua obra reflecte o desenraizamento, a saudade e a angústia da guerra. O regresso à Europa em 1947 não passa por Lisboa. É em Paris que se fixam, instalando-se de novo no Boulevard Saint-Jacques.

Mais tarde, nos anos cosmopolitas da consagração, Vieira e Arpad regressaram regularmente a Lisboa, sempre àquela pequena escala do Alto de São Francisco que os remetia para o despojamento e a essencialidade. Também a casa de campo adquirida e remodelada em 1960, em Yèvre-le-Châtel, teve especial importância na obra dos artistas. São inúmeras as obras de Vieira da Silva que remetem para a estrutura de madeira da casa e certos apontamentos de luz sugerem espaços monacais, de silêncio e contemplação, nalgumas das suas obras. A obra de Arpad alcança uma dimensão espiritual muito subtil; a exploração da atmosfera, a organização lumínica e rítmica regem as suas paisagens imaginadas, a sua pintura é várias vezes referida como silenciosa, evocativa e evasiva, o que se deve, em parte, ao retiro de Yèvre.

Para albergar o futuro museu que lhe seria dedicado (e a Arpad Szenes) Vieira da Silva escolheu a antiga “Fábrica de Tecidos de Seda”, simples e ampla casa pombalina ligada a uma estrutura fabril do início do século XX. A escolha afectiva do edifício pautou-se pela sua simplicidade e proporções harmoniosas, pela proximidade da Praça / Jardim das Amoreiras com a casa do casal em Lisboa, e reflecte a sobriedade e a discrição em que Vieira se revia.

No Museu, prevalece uma atmosfera discreta e simples. Vieira da Silva acreditava que a sobriedade do espaço era essencial à fruição da sua pintura e, nesse sentido, o despojamento do imóvel preexistente adequava-se plenamente à forma como idealizava o ambiente museológico.

De acontecimento aparentemente fortuito, cada atelier foi-se tornando um sítio metafísico: em cada um eclodiu a extraordinária obra dos pintores. 

Marina Bairrão Ruivo

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