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AMIGOS DE PARIS. Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins
Galerias piso 1
26 Janeiro 2012 - 15 Abril 2012
AMIGOS DE PARIS. Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins

AMIGOS DE PARIS

Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins  

«Croyez-nous, c’est pour nous un véritable plaisir que de voir ces jeunes travailler et s’épanouir dans le climat si actif de Paris.»

Arpad Szenes sobre os jovens artistas

A exposição Amigos de Paris. Lourdes Castro, René Bertholo, José Escada, Jorge Martins  é organizada pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva em colaboração com  Fundação Calouste Gulbenkian.  Comissariada por Ana Vasconcelos e Melo (FCG-CAM) e Marina Bairrão Ruivo (FASVS), a exposição reúne obras de quatro artistas: Lourdes Castro e René Bertholo, Jorge Martins e José Escada. Todos tiveram uma ligação especial ao casal Szenes, pela amizade e pela orientação artística.

A mostra procura revelar obras de início de carreira (década de 60 e início de 70), que ilustrem um período crucial da produção e apontem já futuras direcções de pesquisa. À colecção do museu juntámos um conjunto de obras da colecção da Fundação Calouste Gulbenkian, aquisições e doações dos artistas, complementado por algumas obras de colecções particulares.                                                                                

Arpad Szenes (em 1925) e Vieira da Silva (em 1928) optaram por sair dos seus países de origem para viver em Paris, motivados pelas necessidades de uma pintura cada vez mais exigente e pelo estímulo cultural e intelectual da cidade. Conheceram o exílio no Brasil (1940-1947) e permaneceram apátridas até 1956, ano em que lhes foi concedida a nacionalidade francesa. O casal manteve sempre um contacto regular com artistas e intelectuais portugueses, nas visitas a Portugal ou em Paris, onde eram frequentemente procurados.

Nos anos 50 a sua pintura atinge a maturidade e ganha notoriedade em França e no estrangeiro, enquanto o clima cultural em Portugal é marcado pelo isolamento, pela censura e pela estética modernista própria do regime e da sua ideologia repressiva, pela ausência de possibilidades no ensino, no mercado e nas instituições. O desejo de renovação cultural e artística, a procura da possibilidade de trabalhar ou a recusa em participar na guerra colonial (1961-1974) levaram uma geração de jovens artistas portugueses a abandonar o país.

Em 1956, a criação da Fundação Calouste Gulbenkian trouxe novas perspectivas à actividade cultural. A política de apoio às artes e, em particular, a atribuição de bolsas de estudo para o estrangeiro gerou uma nova dinâmica no panorama artístico português. O êxodo criativo, motivado por dissidência cultural ou política convergia sobretudo para Paris.

A generosidade de Maria Helena Vieira da Silva e de Arpad Szenes era conhecida, em especial para com os jovens artistas portugueses que chegavam a Paris com poucos recursos. O casal interessava-se pelas suas experiências pictóricas, providenciava discretamente para que não lhes faltassem materiais, visitava os seus ateliers e convidava-os regularmente para sua casa, oferecendo um desenho ou um guache para poderem vender quando a necessidade era mais premente. Por seu lado, também os jovens artistas ofereciam obras suas ao casal, núcleo que integra actualmente o espólio da FASVS e parte do qual é agora mostrado.

Lourdes Castro (1930) e René Bertholo (1935-2005) partiram para Munique em 1957, mudando-se pouco depois para Paris, onde permaneceram até ao final da década de 70. Aí fundaram o grupo KWY, junto com Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, João Vieira, José Escada, Jan Voss e Christo, do qual resultou uma revista com o mesmo nome, editada em doze números. Arpad Szenes e Vieira da Silva assinaram a revista desde o primeiro número e nela colaboraram, com a cedência de matrizes para a edição de serigrafias.

Lourdes Castro prosseguia a sua pesquisa sobre a representação da sombra, que em 1964 se materializou no recurso ao plexiglas (mais tarde projectando a representação das sombras em lençóis), após ter realizado (1961-1963) objectos-caixas com assemblage de diferentes objetos de utilização quotidiana e consumo corrente.

Foi em Paris que René Bertholo construiu a sua linguagem. Adepto da edição de múltiplos (serigrafia, litografia, edições de artistas), dedicou-se nos primeiros anos à revista KWY. Após uma fase de aprendizagem abstracta, a pintura de René Bertholo equaciona a relação entre figuração e abstracção, introduzindo num discurso neo-figurativo irónico e poético, figuras e motivos da vida quotidiana, numa espécie de inventário da realidade e dos seus símbolos. Após 1965, os objectos pintados passam a objectos e mecanismos tridimensionais com pequenos motores eléctricos que provocam movimentos lúdicos e repetitivos, também estes múltiplos por opção.

José Escada (1932-1980), amigo de Lourdes Castro e René Bertholo, juntou-se ao projecto da revista KWY, desde Lisboa. Em 1959 ganha uma bolsa da Gulbenkian para estudar  pintura em Paris, tendo como orientadores Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. Chega a Paris no início de 60, privilegiando o desenho e a aguarela, em exercícios caligráficos imaginários. As composições labirínticas são transpostas para dobragens de papel simétricas, também elas obsessivas, que conduziram a uma pesquisa relacionada com o corpo humano. O seu trabalho confundiu-se com a procura metafísica do artista e sua busca de ordem jamais teria fim.

Jorge Martins (1940) foi para Paris em 1961, não integrou o grupo KWY (tendo no entanto colaborado no n.º 8 da revista) nem foi bolseiro da FCG. Foi, todavia, o que permaneceu mais tempo na capital francesa (1961-1974; 1976-1991) e foi dos mais próximos de Vieira da Silva e de Arpad Szenes, trabalhando largas temporadas nos ateliês dos artistas, em Paris e em Yèvre-le-Châtel. Nos estimulantes anos 60 parisienses Jorge Martins investigou e exercitou um inventário de formas, jogos de luz e uma linguagem plástica em escultura, fotografia, pintura e no desenho - que terá um lugar determinante na sua obra.

 

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