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MAIA HORTA | PLAYERS
Casa-Atelier Vieira da Silva
04 Março 2021 - 06 Junho 2021
MAIA HORTA | PLAYERS

Pimbolim é matraquilho

 

Com efeito, o que há de mais inepto do que uns homens atrás de uma vidraça? Parece que o vidro deixa passar tudo, mas estaca somente uma coisa, o sentido dos seus gestos. (...) vemos tudo o que ela vê. Simplesmente construíram-na de modo tal que seja transparente às coisas e opaca às significações (...)”[1]

 

Jean-Paul SARTRE

 

Em gíria futebolística, um matreco é um termo pejorativo. É o mesmo que cepo, pino ou coxo: é alguém que não sabe o que anda a fazer em campo.

Existe nos matrecos um gérmen de tragédia. Podem ser descritos como simples peças de um jogo. Mas poderia igualmente descrevê-los como homenzinhos de chumbo, presos a um espeto de ferro, condenados a repetir vezes sem conta os mesmos gestos. São, portanto, figuras trágicas, absurdas. À sua humilde escala, ecos de Sísifo ou de Prometeu agrilhoado.

Um matreco não tem metafísica. Nunca tinha pensado nisto. É definido por aquilo que faz e não por uma qualquer essência conferidora de sentido.

Um jogo de matraquilhos é uma actividade lúdica. Acredito que há grandes afinidades entre jogo e arte. São ambas actividades voluntárias, que têm lugar num espaço e tempo delimitados, puros, sujeitos a regras próprias. O seu desfecho é simultaneamente incerto e inconclusivo: o que acontece na área de jogo não deve ter consequências na vida real. São, por isso, na sua génese, actividades fundamentalmente não produtivas.

Em resumo: um jogo de matraquilhos é essencialmente uma actividade improdutiva e inconsequente.O mesmo se poderia dizer do acto de pintar.

 

A exposição de Maia Horta é constituída por três instalações de pintura: telas de grande escala, com retratos de matraquilhos; monotipias em papel com retratos de jogadores, nas paredes e em gavetas. As monotipias resultam de pinturas feitas sobre vidro. Algumas das matrizes ainda sobrevivem, outras não. Podemos encontrar uma destas pinturas sob a vidraça da entrada, virada para o exterior.

Há nos rostos amolgados dos matrecos uma dignidade de fotografia antiga: alguns parecem sorrir-nos; outros parecem quase surpreendidos por tão inusitada atenção. As lapidações tornam-se marcas diferenciadoras dentro do seu anonimato. Nas monotipias assistimos à inversão desta lógica. Trata-se de imagens originalmente retiradas de cromos, pequenas figuras de culto ao futebolista deus, herói e extraterrestre. Aqui, porém, as figuras perdem o seu valor icónico e o que fica é apenas o cromo.

Pintar é uma tarefa física, emocional e economicamente desgastante. Na maioria das vezes, ingrata. Exige um constante confronto com os próprios limites e caminhar sempre à beirinha da sombra aterradora da inaptidão, da ausência de sentido e do fracasso.

Acredito que para a Maia Horta – consciente ou inconscientemente - estes retratos adquiram o peso de uma provação existencial. Um esforço para fazer sentido do próprio acto de pintar, que para um pintor é compulsivo, e por isso mesmo, órfão de sentido. Pintar: porquê, para quê e para quem?

Albert Camus disse que tudo o que aprendeu sobre moral, aprendeu-o no campo de futebol. Não iria tão longe, mas reconheço que existe na sua gíria muita sabedoria. «Prognósticos só no fim do jogo». «Futebol são onze contra onze, no fim ganha a Alemanha.». «Jogámos como nunca, e perdemos como sempre.» A maioria destas expressões oferece-nos um doce e solidário fatalismo perante a inutilidade disto tudo. Só nos resta levantar a cabeça e pensar no próximo jogo. Que remédio. Só assim podemos esboçar algo que se assemelhe a um sentido.

Gosto da gíria futebolística. De todas, a minha expressão preferida é, no entanto, «o futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso.»

O mesmo se poderia dizer da Pintura.

 

 

Jorge André Catarino

Março de 2021



[1] Jean-Paul SARTRE, introdução a O Estrangeiro, Albert CAMUS, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.31

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