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JOÃO CUTILEIRO | TINHA SEMPRE A LISBOA DELA, E MINHA, POR FUNDO
04 Março 2021 - 06 Junho 2021
JOÃO CUTILEIRO | TINHA SEMPRE A LISBOA DELA, E MINHA, POR FUNDO

FOTOGRAFIAS DE MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA E DE ARPAD SZENES

Na fotobiografia de Vieira da Silva, João Cutileiro acompanha os retratos que fez de Vieira e de Arpad com a memória do primeiro encontro com a pintora. Sem Arpad, Vieira chegou a casa da família de João Cutileiro levada pela também pintora Estrela Faria, amiga desde o liceu do pai do escultor, o médico José Jacinto Cutileiro, já então, em 1952, proibido por razões políticas de ocupar em Portugal emprego público. João Cutileiro tinha 15 anos, Vieira uns 44, já com uma grande carreira, pedia nesse ano, pela segunda vez, a reposição da cidadania que, de novo, lhe seria negada. O adolescente Cutileiro desenhou a pintora, num retrato que, passado uns anos, viu com orgulho na parede do ateliê de Paris. Só mais tarde, noutros encontros, que não foram muitos, surgiriam os retratos fotográficos. João Cutileiro gostava de dizer que a fotografia era a primeira das artes, muito embora fosse das últimas a ser inventada: uma tecnologia que demorou para dar expressão ao impulso primevo de fixar o instante. Esse fixar do momento fugidio marcou-lhe, contudo, talvez menos a fotografia, onde preferiu o retrato, do que o desenho, ou algumas séries de esculturas voyeuristas de instantes roubados a intimidades. Mas Cutileiro foi um fotógrafo compulsivo desde os anos londrinos, em que a fotografia chegou a ser uma fonte de rendimento necessária. Dessa vontade incessante de fotografar ficou um impressionante arquivo de seis décadas, documentando milhares de contactos, várias gerações de amigos e conhecidos em que se contaram não poucos nomes fundamentais da cultura portuguesa e europeia, e que constitui uma parte importante do espólio que deixou ao Estado Português. A fotografia digital, sem revelação demorada nem necessidade de poupanças nos disparos, alimentou-lhe a sofreguidão no roubo da imagem de quase todos os que com ele se cruzavam. Se não encontrássemos o João coberto de pó e de protetores auriculares na cabeça, então era muito provável que o víssemos de máquina fotográfica ao pescoço, pronta a disparar nos intervalos dos copos e do petisco, uma espécie de complemento natural da confraternização, um recolher mais perdurável dos momentos efémeros da amizade.

Joaquim Caetano

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