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BACKSTORIES. MITSUO MIURA | PEDRO CALAPEZ | RUI SANCHES
Galerias Piso 1
24 Maio 2016 - 25 Setembro 2016
BACKSTORIES. MITSUO MIURA | PEDRO CALAPEZ | RUI SANCHES

Backstories reúne trabalhos de Pedro Calapez, Rui Sanches e Mitsuo Miura sob o desafio de um encontro com a obra de Maria Helena Vieira da Silva. Não se trata de uma conjunção que toma por base peças pré-existentes mas de um percurso traçado especificamente para o momento, um projecto nascente do diálogo entre os artistas, em torno do tema primevo do Livro e da Biblioteca, e da incorporação do sujeito na pesquisa desenvolvida por Vieira da Silva como matéria visual passível de manuseio dos conceitos de espaço e tempo, realidade e memória, afecto e acção, identidade e história. Daí que entre galerias expositivas, se descubra a “Bibliothèque en feu” (1974), peça emblemática da investigação da pintora, labirinto visual de espaços imbricados, livros, lombadas e letras, pontos de fuga em aparente luminescência.

A Bilioteca assumida no sentido de espaço infinito, de desdobramento contínuo, como na Babel de Jorge Luis Borges, a par da ideia de uma história antes da história, de acontecimentos múltiplos que antecedem uma narrativa e lhe conferem existência, que a enformam, se descobrem aos poucos ou se intuem. E se materializam no impulso incessante do saber que a busca através da leitura estrutura.

Podem assim descobrir-se histórias silenciosas que ancoram o visível, para além do mais abrangente e indefinível da experiência e trabalho de cada um dos artistas, as leituras conducentes a este projecto, visões de outros criadores que fizeram do homem matéria e esgrimiram a complexidade da condição humana. Cada artista ocupa uma galeria do museu. Numa outra coexistem desenhos, pinturas, objectos, em proximidade e leituras.

Rui Sanches, apresenta quatro esculturas postas em relação, formando uma quase-arquitectura accionada pelo corpo visitante. É preciso encontrar um caminho, um modo de ver, uma disponibilidade para o espectador se encontrar no cotovelo das paredes, como reflexo, no espelho, em fragmento, na transparência. O espaço deve ser percorrido, com a disponibilidade do pensamento e da fisicalidade com que se constrói o mundo.

Mais do que o que se vê, interessa a Pedro Calapez o que se oculta e/ou sabe por detrás do que se vê. Que para Vieira da Silva, as imagens nasciam tantas vezes de palavras lidas, trocadas com Mário Cesariny, Cecília Meireles, assimiladas através dos escritos de Miguel de Unamuno ou Teixeira de Pascoaes. Cada pintura encontra por isso correspondência num livro determinado desses autores, para eles remete o título, mediante identificação através do sistema de numeração internacional (ISBN) e de um verso ou frase catalizadora das razões da imagem. Avança-se políptico a políptico, história a história, página a página. Em escala directa, dentro das imagens, como se fora possível manusear (mo-nos em) os livros.

Da extrema densidade cromática passa-se de imediato, na sala seguinte, à fragil dissolução do real com a floresta de mangas plásticas que obstaculizam visão e passos. Mitsuo Miura parece ir mais longe, como se submergíssemos dentro da cabeça, do pensamento, arquivo de ideias suspensas. Entre sombra, opacidade e transparência, o discurso ganha forma, a sinapse transcrição, o sentir acção. O espectador age neste percurso na demanda de caminhos. E o que é uma biblioteca senão uma miríade de reflexões e sentidos?

 

Ana Ruivo

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