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Jaime ISIDORO
Jaime ISIDORO

Porto, 21 de Março de 1924 - 21 de Janeiro de 2009

Foi no Porto que Jaime Isidoro se iniciou, como estudante na Escola Soares dos Reis e como artista, expondo individualmente pela primeira vez em 1945 no antigo Salão Fantasia.

Para além de artista plástico Jaime Isidoro dedicou-se também à programação e divulgação cultural, tendo para esse fim promovido os Encontros Internacionais de Arte, a edição da Revista de Artes Plásticas, e criado a Bienal de Cerveira (1978), a mais importante bienal de arte do país. Como galerista, foi co-fundador da Galeria e Academia Dominguez Alvarez (1954) e da Galeria Dois, na Boavista.

A sua produção artística organiza-se segundo dois momentos, o dos anos 40-50 e o dos anos 80, e o seu estilo, que começou por ser simples e figurativo acabou estabelecendo-se como abstraccionista.

Precisamente dessas duas fases artísticas resultam as distinções que Jaime Isidoro recebeu em vida: os prémios Armando Basto (1954), António Carneiro (1955) e Henrique Pousão (1957), a Medalha de Mérito Cultural da Câmara de Cerveira (1982) e a de ouro da câmara do Porto (1988). Em 2002 Jaime Isidoro recebe a medalha de ouro da câmara de Gaia e em 2006 é feito Grande-Oficial da Ordem do Mérito.

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«Das minhas visitas a Paris fui um dia bater à porta do atelier de Vieira da Silva – 51, Bd. Saint-Jacques. Logo no primeiro contacto me disse:
- “Os portugueses não me procuram em Paris. Porque aqui vem?” 
- “Sou um estudante de pintura. Vi uma pintura sua no Salão de Maio, o catálogo menciona a sua morada e aqui estou para a conhecer”. 
Entrei para uma grande sala (…). Fez um chá que tomamos juntos. Mostrou-me vários catálogos seus de diversas exposições, que me ofereceu. Fui desastrado ao entornar a chávena de chá na mesa. Mostrou-me pinturas que eu, fascinado, absorvia (…).
No Porto fui ao Museu Nacional Soares dos Reis e com entusiasmo falei com o conservador, o pintor Agostinho Salgado, do meu encontro com Vieira da Silva, que descobri no Salão de Maio em Paris, exposta ao lado de Picasso, Braque, Chagall, Miró, etc. Mostrei a documentação e não convenci o conservador que me disse: “Jaime Isidoro, o que me mostra são quadradinhos, quadradinhos.” Não passei a minha mensagem e respondi: “Quem perde é o Museu Nacional Soares dos Reis a oportunidade de possuir uma obra de Vieira da Silva”. 
Entendi que a pintura de Vieira da Silva era incompreendida em Portugal. A partir daí (anos 50) dediquei-me à divulgação em Portugal da obra de Vieira da Silva.

Disse-me que não gostava muito dos portugueses que “hoje não me pagam com milhões, duzentos escudos.” Não entendi bem e ela explicou: “Todos os jovens em Portugal têm quem lhes compre um quadro por 200$00. E eu nunca tive! E agora pagam milhões pelos meus quadros.”

Certa vez Maria Helena e Arpad vieram ao Porto e procuraram-me na Galeria Alvarez, eu não estava e deixaram-me uma serigrafia. Davam-me serigrafias e originais para ajudar a Galeria Alvarez, considerando o grande esforço que eu fazia para a sustentar.

(…) Vieira interrogou-me: “Jaime, nós chegamos a uma idade em que as indecisões são grandes. Pinta-se e duvidamos, não temos consciência. Eu não paro, continuo a pintar, mas não defino muito bem o que estou a fazer. Sinto-me por vezes angustiada. Que me diz?” Fiquei atrapalhado, surpreendido sem saber o que responder. Até que lhe disse: “Lembro-lhe artistas que com o avançar da idade fizeram grandes obras” (…)».

Jaime Isidoro

Publicado em Au fil du temps: percurso fotobiográfico de Maria Helena Vieira da Silva. Lisboa: Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, 2008, p. 129.
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