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Acerca da colecção. Ficha de imagem
Vieira da Silva

Composition é uma obra do período que precede a Segunda Guerra em que o tema da pesquisa de Vieira da Silva sobre a problemática do espaço se centrou na perspectiva, iniciada na pintura Atelier, Lisbonne (1934-1935) e que, mais tarde e faseadamente, tratou em inúmeras variantes. O trabalho de Vieira da Silva vinha-se distanciando do real, rumo à abstracção, concentrando-se na estruturação espacial e tentando apreender a essência da pintura pela dissecação do espaço pictórico.

Tal como Atelier, Lisbonne, esta obra foi feita em Lisboa onde Arpad Szenes e Vieira da Silva passam uma longa temporada, entre 1935 e 1936, no atelier do Alto de S. Francisco que se tornou um ponto de encontro e de tertúlia de intelectuais e artistas. Apesar de não ser consensual o papel da obra de Vieira da Silva na historiografia de arte portuguesa, Portugal permanece para a pintora um referente afectivo, mas também formal e temático. Em Lisboa, a casa/atelier dos artistas foi um espaço de criação e de intensa produção e as obras deste período são de extrema importância no percurso da pintora. As suas pinturas abstractas não foram no entanto compreendidas senão por alguns amigos. Paradoxalmente, é num país que não a  entende que a pintora criou as linhas fundamentais da sua poética abstraccionista.

Nesta obra, Vieira da Silva retoma exactamente um detalhe de Atelier, Lisbonne, em grande plano e isolado, uma estrutura de eixos rectos e curvos associados a um plano em grelha. A perspectiva tende a ser ultrapassada nesta série temática, pinturas de espaços fechados, que resultam do despojamento das estruturas plásticas. Os elementos de uma nova linguagem plástica (rede, grelha, espiral), são utilizados sistematicamente e permitem compartimentar e multiplicar os espaços, fugindo da predominância do ponto de fuga e reforçando a ambiguidade espacial.

Os temas perdem importância e transformam-se em esquemas plásticos, as pinturas são intencionais composições e remetem para um afastamento da realidade exterior. Concentrada na essência, a atenção da artista é retida pela armação do visível. Composition faz parte de um conjunto definido como ossaturas espaciais, onde a abstracção exclui qualquer figuração e as linhas, planos e estruturas de redes se conjugam para compartimentar, multiplicar e bloquear simultaneamente o espaço no suporte bidimensional da tela.

A ampliação de um pormenor para grande escala implicou o alargamento do grafismo e o contorno das formas, elemento privilegiado em composições posteriores. Noutras obras desta série as linhas tornam-se faixas coloridas entrelaçadas, a referência à perspectiva é afastada, a profundidade atenuada. A cor é também utilizada de um ponto de vista dinâmico, reforçando o aprisionamento do espaço e dirigindo o olhar. Na paleta mais discreta e saturada de Atelier, Lisbonne, pequenos apontamentos de cor já animavam e perturbavam a composição. Agora a cor assume uma nova função, intencionalmente subversiva e perturbadora do rigor das estruturas, em função de relações intrínsecas com a pintura.

O afastamento da realidade e a essencialidade redutora rapidamente se tornaram urgentes de ultrapassar e transgredir, e a figuração impõe-se logo a seguir nas estruturas seguintes. A relação do espaço real com o espaço da pintura, assim como a relação da abstracção e da figuração serão uma constante preocupação de Vieira da Silva que bifurca, recorrentemente, em novas direcções de pesquisa.

Marina Bairrão Ruivo 


Exposições individuais:
1973, Milão, Centro Rizzoli, cat. nº 1; 1973, Orleães, Hôtel Cabu, cat. nº 3, il. p. 21; 1976, Sochaux, Maison des arts et loisirs, cat. nº 9; 1976-1977, Luxemburgo-Metz, cat. nº 7; 1978, Aalborg, Nordjyllands Kunstmuseum, cat. nº 7; 1982, Tunes, Galerie de l'Information; 1988, Lisboa-Paris, Fundação Calouste Gulbenkian e Galeries nationales du Grand Palais, il. p. 31; 1989, São Paulo, 20ª Bienal internacional de São Paulo, cat. nº 3, il.; 1993, Pontevedra, Vieira da Silva nas colecções portuguesas, Deputación Provincial, cat. nº 1, il. p. 10; 2007, São Paulo, Vieira da Silva no Brasil, Museu de Arte Moderna, il. p. 97;

Bibliografia específica resumida:
1977, QBLG, "Au Musée de l'État et à la Galerie Kutter, grandes expositions Vieira da Silva", Luxemburger Wort, 26 Janeiro, il.

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